Um amor diferente

Eu nunca tive um cachorro na minha infância.
Apesar de querer muito, eu tinha muito medo de cachorros que via na rua, porque sempre quando latiam para mim, eu me assustava. Já cheguei a desviar caminhos por causa deles.
O medo veio da minha mãe, que viu meu tio sendo mordido por um cachorro que estava com raiva, o "famoso" cachorro louco. Ela correu porque era muito criança e meu tio mais velho não conseguiu, pois tinha paralisia infantil. Ele morreu porque tomou a  vacina errada, naquela época a vida da minha avó era bem precária e não teve jeito mesmo.

Minha avó é um exemplo de mulher para mim. Foi uma mulher muito batalhadora, criou os quatro filhos sozinha, trabalhou para sustentar a casa e ainda tinha que lidar com meu avó que bebia. A Amélia ficava no chinelo perto dela. O amor que ela sentia pelos filhos, apesar da falta de paciência por tudo estar muito errado e desesperador, a fez correr atrás.

Perdeu um filho, que completava doze anos e mesmo com algumas mágoas, carências e lágrimas em datas importantes, ela só tinha muito amor dentro dela.
Assim sendo, seu amor por cachorros nunca se abalou apesar da perda. Realmente o animalzinho não tem culpa, mas existem pessoas que se revoltam, né?

O primeiro cachorro que eu me lembro da casa da minha avó se chamava Beleza, era o cachorro mais feio que já  vi na vida, ao mesmo tempo que era o mais doce do mundo.
Minha avó cuidava dele, gritava com ele, dava vacina e pratos homéricos de comida. Ele era gordo e um companheirão. Seu rabo era um chicote e morria de medo de banho.
Ela detestava que ele entrasse em casa, isso nunca permitiu.
Mas ele era sorrateiro, ligeiro entrava na casa da minha avó, pulava no sofá, na cama e corria para fora o sapeca e me lembro da vó gritando:

_ Be lee zaaaaa, Pera aí !

Eu achava muito engraçado, mas como o Beleza não era meu eu não entendia aquela ligação. Achava que era apenas um simples cachorro.
Até que um dia minha avó viajou e o Beleza ficou muito doente. Meus pais cuidaram dele, mas não teve jeito, ele tinha escapado e os cachorro da rua machucaram muito ele. Não aguentou.
Fomos buscar minha avó em São Paulo e quando chegamos em casa perguntei a minha mãe se poderia dar a noticia para ela.
Era criança, não achei que ela teria alguma reação, achei que seria algo simples de se lidar.
Vi minha avó chorar da forma mais dolorida que já presenciei. Foi a muito tempo, mas foi marcante.
Vinte anos depois ...
Quando me casei, ganhei um cachorrinho do meu marido. Se chamava Chiquinho. Ele mordia meu pé, era um fanfarrão. Fazia daquele grande apartamento pequeno.
Fiquei grávida e realmente o apartamento estava pequeno para ele, não podia tomar sol ou brincar. Não estava feliz sem quintal. Não sabia se meu bebê teria alergia, porque meu marido sempre foi muito alérgico. Tivemos que doar ele. Uma família muito boa, que ia amá-lo, mas o dia entreguei ele lembrei da minha avó. Foi um dos dias mais tristes que passei.

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