Uma história de família



Histórias de família na ocasião em que acontecem podem não ser tão engraçadas, mas tudo depende relativamente de quanto o tempo passou.
Guardo histórias na minha memória de tempos que eu nem existia, mas que fazia questão de ouvir e me imaginar em cada cena.
Se eu pudesse faria um livro com cada uma delas e me divertiria pro resto da minha vida.
Lembro-me de uma que sempre pedia para minha mãe me contar. Era de um primo irmão dela, que se chamava Edson. Era um moleque arteiro, que apelidava todos os primos e nunca perdia uma piada.
Como nós sempre herdamos certos traços, com certeza esse lado sarcástico era hereditário.
Meu avô, mulato, carismático, adorava umas branquinhas (pinguinhas das fortes), não era um exemplo de marido e nem de pai, mas tinha o dom de fazer boas amizades porque era um sarrista que só!
Cada um nasce para alguma coisa, não tem jeito.
Tinha amigos para dar e vender, arrancava gargalhadas como se tira água do mar. Não perdia nenhuma chance de rir de alguém.
Até que a história desse primo se uniu com a do meu avô.
Esse Edson moleque pobre, de rua, em uma época que as crianças produziam seus próprios brinquedos, com rolo de linha ou tampinha de garrafas, esse meu primo gostava mesmo era de nadar no Paraíba. Rio bravo, onde só os corajosos poderiam mergulhar.
Mas ai desses moleques se as mães soubessem que iam para o Paraíba nadar, a cinta, a varinha de marmelo ou o chinelo "comiam solto".
Só que para o Edson tudo era motivo de longa estória, não tinha como enrolar mais minha tia. Ficava o dito pelo não dito.
Até que um dia depois de muito nadar no Paraíba, ele vinha alegre e contente pelas ruas de Caçapava. Pés molhados, descalços e segurando sua camisa.
Não esperava que veria meu avô, trabalhando na estação de trem. Conhecendo meu avô sabia que alegria de palhaço era ver o circo pegar fogo.
Colocou a camisa na cabeça para disfarçar. Em vão, meu avô o reconhecia pelas pernas finas e manchadas.
"E bichão hein? Vai nadar um pouquinho?"'

Eu imagino como o coração daquele moleque travesso deve ter gelado de medo.
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