Meu Semiárido


A noite caiu no meu agreste.
O cordel chora com a peste
O silêncio povoa o sertão
O silêncio da fome e da solidão
A lua chegou e ainda não tem pão.

A criança aquietou
Mas ela chorou chorou chorou
Assim como chorou no meu coração

A moléstia persegue, minha sina
A tristeza do sertão alucina
Minhas mãos secas não  conseguem produzir
As sementes, os brotos só servem para iludir
Não tem macaxeira ou  jerimum para dividir.



Não tem água nos meus  olhos secos
Minha pele é como um açude sem água
Ela queima no sol  e descasca com os ventos frescos
Que levam para longe minha mágoa.

Eu queria ser um cabra estribado
Rico cheio de gado
Mas o meu boi luta para sobreviver
Companheiro fiel que não me deixa morrer

Quando o dia está muito difícil para criança
Do céu não vem chuva mas vem raios
Penso em Deus mas sem esperança
Vou procurar água para trazer em balaios.

4 horas a pé na terra quebrada
Não tenho nem cavalo para cavalgada
Temo por ter no caminho uns cabras
Que tire minha vida a bala

4 horas de estrada eu não encontro água
Minha sede cala
No meu coração mais um funeral
Mas pelo menos pra criança da pra fazer um mingau.

Eu preciso de um atravessador
Que pegue as frutas e cure minha dor
Na caatinga esbravejo pelo meu amor
Que da vida não conhece nenhum sabor

Tiro suco do xique-xique
Da minha terra tenho que ir embora
A solidão dói e não vejo passar a hora

Vou-me embora pra Petrolina
Preciso levar minha menina
Orar pro São Francisco desviar o seu caminho
E ir em direção onde deixei meu ninho.

Ai essa vida sertaneja eterna
Eu só precisava de uma cisterna
O governo não vem ajudar
Trinta reais não mata a tristeza do meu lar

Meu Deus me tira desse inferno
Ou tira a sede no verão e no inverno
As lágrimas quando caírem aprenderei a dessalinizar
Para a minha sede curar.

Apesar de ser só o José
Conviver com o cão
Sem água nem pão
Não vou perder a fé.
Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Quando fui insuficiente e suficiente fui

Amor fechado

Amor a primeira vista