O homem sem sombra

Eu não tenho sombra,
Não tenho identidade.
Não tenho números.
Eu não sou ninguém.
Meus pés estão descalços.
Meus sapatos estão nos pés de um velho
Um velho em carne viva.

Ninguém me trouxe aqui
Me colocaram nesse asfalto
Ninguém me falou de papéis ou canetas.
Eu não sei ler e me rotulam por isso.
Não sabem o que eu sei fazer.

Eu não tenho alguém
Ninguém é por mim

Eu caminho os quarteirões
Eu capino os terrenos
Por comida, por centavos.

Um copo de pinga por favor
Não tenho cobertor.

Não tenho pele
Tenho um couro rachado
Queimado, assado no sol.
Banhado de chuva.

Eu só tenho cheiro
Cheiro que afasta
Que me afasta
Que me empurra
Pro buraco ali em baixo.

Chega hora.
Chega dia.
Quem vai tirar a minha alma?
A única coisa que é minha.

Eu não sou assassino
Mas posso me tornar se alguém quiser
Eu não sou indigente
Mas posso me tornar por alguns órgãos
Eu não sou ninguém
E assim querem me manter.

O Natal é meu lixo
O ano Novo eu rezo
Rezo para Deus

Eu não tenho números.
Eu visto qualquer sapato
Eu visto qualquer bom dia
eu me visto.
2 comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Quando fui insuficiente e suficiente fui

Amor fechado

Amor a primeira vista